Pergunta errada, resposta mais errada ainda

0 Flares Filament.io 0 Flares ×

pergunta1

“Se eu acredito em Deus? Mas que valor poderia ter minha resposta, afirmativa ou não? O que importa é saber se Deus acredita em mim.”

(Mario Quintana In: Mario Quintana – Poesia Completa, Caderno H, Editora Nova Aguilar, p. 367.)

Perguntaram-me o que achava desses versos, intitulados “Pergunta Errada”, do grande poeta e jornalista brasileiro, Mário Quintana. Embora aparentemente bonitos, eles são problemáticos. Quero mostrar o porquê em dois pontos.

1. Crer em Deus é essencial

A fé, segundo a definição de Hebreus 11, é “a garantia/certeza do que se espera e a prova do que não se vê.” (v.1) Em outras palavras, a fé é a capacidade de vislumbrar, ver, enxergar, acreditar em algo que os olhos humanos não veem. Deus, que é espírito (Jo 4.24), não pode ser visto. Então, pela fé o “enxergamos”. O capítulo 11 do livro de Hebreus mostra como algumas pessoas comuns, como eu e você, fizeram grandes coisas “pela fé”. Essa expressão (“pela fé”) aparece em vários versículos desse capítulo, inclusive. Logo, o que está sendo dito é que a fé foi o instrumento, o meio através do qual eles puderam fazer o que fizeram. Eles creram em Deus, e Deus os capacitou. A fé também pode ser definida como: (1) a confiança em Deus e em Cristo e na sua Palavra (Mt 15.28; Mc 11.22-24; Lc 17.5); (2) a confiança na obra salvadora de Cristo e aceitação dos seus benefícios (Rm 1.16-17); e (3) a doutrina revelada por Deus (Tt 1.4).

Tanto é assim que em Hb 11.6 está escrito: “Sem fé é impossível agradar a Deus, pois é necessário que quem se aproxima de Deus creia que ele existe e recompensa os que o buscam.” Ou seja, sem fé não é possível sequer nos aproximarmos de Deus, quanto mais agradá-lo. A palavra que foi traduzida como “impossível”, em grego, significa literalmente, “sem potência”, “sem força”, “sem capacidade para algo”. Sem a fé, nunca teríamos a força, potência ou força para agradar a Deus, pois ela é a única maneira. Lembrando que o Deus que nos exige a fé, também nos capacita pelo seu Espírito a crer (Ef 2.8; 1 Co 12.9).

Olhar para esses textos nos mostra como o começo dessa frase é equivocado. A pergunta “eu acredito em Deus?” não é apenas importante, mas essencial.

2. Deus não acredita em nós

Os motivos pelos quais Deus não acredita no ser humano são vários, mas podemos nos concentrar em basicamente um: ele não precisa. A bíblia fala de um atributo divino chamado onisciência. Ele conhece perfeita e eternamente todas as coisas passadas, presentes e futuras (Sl 147.5; Pv 15.11; Is 46.10). Além disso ele conhece e sonda o coração humano (Rm 8.27). O resultado desse conhecimento inesgotável das coisas é que Deus não acredita em nada. Ninguém precisa acreditar em algo que já sabe que é e conhece exaustivamente – afinal, ele mesmo decretou tudo (Sl 135:6-12). Crença tem a ver com fé e Deus não tem fé no homem. É ilógico pensar que Ele precisa de fé para algo que conhece perfeitamente.

Além disso, o próprio Deus nos adverte quanto a confiança nos homens: “Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem, faz da carne mortal o seu braço e aparta o seu coração do SENHOR!” (Jr 17.5) O homem não é confiável porque é corrompido pelo pecado, desde o seu mais íntimo. Tanto que alguns versículos à frente desse texto de Jeremias, há a alegação: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá?” (Jr 17.9) Se nós, humanos caídos, não podemos confiar na natureza humana, a qual não conhecemos completamente, por que Deus deveria, já que a conhece exaustivamente? Por que Deus, que nos advertiu a não confiar, deveria se contradizer?

A verdade é que Deus não acredita em nós. Ele não acredita em ninguém. Ele é o alvo da nossa fé; é nEle que devemos crer. Toda fé só é genuinamente verdadeira, se for direcionada ao Deus vivo. Ele é o Deus, nós os mortais. Não devemos então, querer ser mais do que somos, achando que podemos ser objetos da “fé de Deus”. Isso é uma enganação sobre quem somos e negação de quem Deus é.

O perigo de frases assim é massagear nosso ego inflado, nosso status humano. Nos sentimos bem, embora enganados. Essa frase, então, revela-se como uma falácia antropocêntrica e, como tudo que coloca o homem no centro, no holofote, é enganoso e nos afasta da verdade. Se a pergunta, na concepção do autor, foi errada, sua resposta foi mais errada ainda.

0 Flares Twitter 0 Facebook 0 Google+ 0 LinkedIn 0 Email -- Filament.io 0 Flares ×

Comentários no Facebook