Uma maldição a ser quebrada na família (Ml 4.6; Ef 6.1-3)

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maldição

Relações familiares nunca foram fáceis. Mas quando falamos de relacionamento entre filhos e pais, podemos ter a impressão de que os problemas se intensificam. Talvez, se olharmos para nossas próprias famílias entenderemos isto com propriedade. Quem sabe constataremos que nossos filhos acham seus pais “ultrapassados”, que eles “não os entende” e, por isso, questionam sua autoridade.

Mas não é apenas atualmente que os filhos têm problemas com os pais. Se olharmos para as famílias das Escrituras, também conferiremos este fato. Cam, filho de Noé, por exemplo, o desrespeitou, violando sua privacidade (Gn 9.20-29), e isso fez sua descendência ser amaldiçoada; Na Parábola do Filho Pródigo, o filho ingrato pede sua parte da herança e vai viver dissolutamente, mas devido a isso, sofre as consequências (Lc 15.11-32).

Os cristãos comprometidos com as Escrituras assistem preocupados ao surgimento de uma geração de filhos rebeldes, que desobedecem aos pais, que não tem reverência e temor pelos pais. Mas tudo isso mostra que o coração dos filhos não está convertido aos seus pais. E quando isso acontece, nossas famílias se tornam amaldiçoadas; nossa sociedade entra em degradação.

Este tipo de filhos sempre caracterizou sociedades que estão em decadência moral e espiritual. Já em meados do século I da era cristã, o apóstolo Paulo, ao descrever a decadência da sociedade romana de sua época mencionou filhos desobedientes como um dos sintomas desta decomposição e declínio (Rm 1.28-32). Mais tarde, escrevendo à Timóteo, reafirma que uma das marcas da humanidade em franca rebelião contra Deus é exatamente uma geração de filhos desobedientes aos pais (2Tm 3.2).

A desobediência em geral, e aos pais em particular, caracteriza, segundo a Palavra de Deus, uma sociedade em declínio moral e espiritual, cujas bases e fundamentos estão sendo minados e cuja noção de autoridade está sendo perdida – uma sociedade de famílias amaldiçoadas!

Contextualização

Este estudo é baseado em dois textos bíblicos. No primeiro, em Malaquias, é dito que arrependimento e conversão à Deus serão vistos na restauração dos relacionamentos familiares (Lc 1.17). É uma promessa que fala da vinda do Senhor Jesus, pois quando ele viesse, ele converteria o coração dos pais aos filhos e o coração dos filhos a seus pais e evitaria que a terra fosse ferida por maldição. Hernandes Dias Lopes, em seu comentário de Malaquias diz o seguinte:

O bendito evangelho começa no lar. Se o evangelho não funcionar no lar, não funcionará em lugar algum. A mais bela expressão do evangelho é o lar, feliz, onde os pais entendem os filhos e têm tempo para eles; onde os filhos, cercados de amor, crescem no conhecimento de Cristo. A transformação do povo de Deus precisa começar na família. Não há igrejas fortes sem lares fortes. A volta para Deus implica restauração de relacionamentos familiares. A conversão do coração dos pais aos filhos e dos filhos aos pais significa mais do que acabar com os conflitos de gerações. Isaltino Gomes diz que essa conversão implica em unir pais e filhos em torno de uma pessoa. No judaísmo, o lar era um centro de ensino sobre Deus e Sua Palavra. A nova época que Elias viria anunciar e que o Messias viria implantar, teria uma mensagem capaz de reunir toda a família. Os laços familiares continuam sagrados na nova revelação.[1]

O segundo texto bíblico que nos serve de base, são as palavras do apóstolo Paulo dirigidas exatamente a esta questão do exercício da autoridade dos pais sobre seus filhos. Olhando para os versículos antecedentes ao nosso texto de Efésios veremos que ele havia tratado do relacionamento entre o marido e sua mulher. Agora volta-se para os filhos.

E à luz destes 2 textos, de Malaquias e Efésios, que podemos refletir sobre uma maldição a ser quebrada na família.

Uma maldição a ser quebrada na família

O que os filhos devem fazer para quebra-la? Entender três preciosas lições.

1. Entender o que é obedecer

Paulo, no nosso texto de Efésios começa, dizendo: “Filhos, obedecei a vossos pais…”. Veremos o que significa obedecer e o que seria seu antônimo.

a. O que significa “obedecer”

O que a palavra “obedecer” significa? Seu sentido é óbvio, mas há uma nuança expressa pela palavra usada por Paulo[2]. Significa “obedecer após haver prestado atenção ao que foi dito”. Literalmente, na língua original em que foi escrita, ela significa “ouvir sob” alguma coisa, ou seja, colocar-se debaixo daquilo que escutou – daí a ideia de obediência.

Significa colocar-se “sob a voz do que fala com autoridade”, no caso, os pais. Obedecer aos pais ou colocar-se sob a orientação da voz deles, em termos práticos, significa respeitá-los, reverenciá-los, tê-los em honra, em consideração e tratá-los com dignidade, como pessoas especiais e colocadas por Deus na posição de autoridade sobre eles. Mas, honrar os pais significa mais que isto. No Antigo Testamento, a honra devida aos pais era entendida, não somente como respeito e reverência, mas como sustento financeiro em tempos de necessidade.

No Novo Testamento encontramos textos que nos mostram a importância dos pais, como por exemplo, Mt 15.4: “Porque Deus ordenou: Honra a teu pai e a tua mãe; e: Quem maldisser a seu pai ou a sua mãe seja punido de morte.”; e 1Tm 5.4: “[…] aprendam primeiro a exercer piedade para com a própria casa e a recompensar a seus progenitores; pois isto é aceitável diante de Deus.”

Um alerta: Podemos observar como os ensinamentos da Palavra de Deus vão contra filhos que colocam seus pais em asilos, para não terem a responsabilidade de cuidar deles. É uma questão ampla, mas se a motivação for errada, caracteriza pecado. Na Bíblia não há espaço para quem busca seus próprios interesses, sem honrar aqueles que cuidaram e se desgastaram para cuidar de nós.

b. O que significa “desobedecer”

Qual seria o oposto de honrar os pais? Várias coisas podem ser apontadas.

Primeiro, desprezar os pais. Moisés declarou que os filhos que desprezassem os seus pais seriam maldiçoados por Deus. Em Dt 27.16, diz que é “Maldito aquele que desprezar a seu pai ou a sua mãe. E todo o povo dirá: Amém!”

Deus leva muito a sério a questão do respeito e da honra para com os pais. O oposto de obedecer aos pais é desprezá-los. Filhos que que não dão atenção ao que dizem e que não se submetem às suas orientações, estão debaixo do julgamento de Deus. E, geralmente, filhos que crescem com este espírito, encontram mais tarde a maldição de Deus em suas vidas. Filhos rebeldes, filhos com problemas, tendem a se tornar pessoas que não se ajustam. Eles geralmente veem de uma família deficitária, de uma posição, desde cedo, de rebeldia.

Segundo, desobedecer significa: amaldiçoar os pais. Moisés determinou que os filhos que amaldiçoassem seus pais fossem mortos pela comunidade de Israel (Êx 21.17; Lv 20.9). Amaldiçoar significa lançar maldições, abominar, desejar o mal e a perdição de alguém.

Por incrível que pareça, há filhos que fazem isto com seus pais. Hoje, não há mandamento para executar esses filhos, como se fazia em Israel no passado, mas com certeza, o ensinamento básico continua. Na época do Antigo Testamento, antes da vinda de Jesus Cristo, a criança ou jovem que amaldiçoasse ou insultasse seus pais, era apedrejado na hora. Na nova aliança, os filhos não são apedrejados por isto. No entanto, deveriam ser disciplinados severamente por seus pais.

Portanto, quando a Palavra de Deus diz: “Filhos, obedecei vossos pais”, significa: honrá-los, respeitá-los, acatá-los, sem jamais amaldiçoá-los, sem desprezá-los ou insultá-los, mas sempre se colocando sinceramente sob a sua voz de orientação e comando.

Há uma maldição a ser quebrada na família e para fazer isso, nós, os filhos, precisamos entender o que é obedecer, e, caso sejamos pais, e ensinar nossos filhos a fazê-lo como nós.

2. Entender os limites da obediência

Ainda no v. 1 de Ef 6, podemos ler: “Filhos, obedecei a vossos pais no Senhor…”

É possível entender esta expressão como sendo uma limitação à obediência, isto é, obedecer naquilo que é agradável ao Senhor.

Pode-se entender como uma expressão do modo como Paulo gostaria que os filhos obedecessem, ou seja, como Cristo obedeceu ao Pai, ou melhor ainda, porque Cristo está vendo o coração deles. Esta interpretação está apoiada por Colossenses 3.20, onde Paulo diz: “Filhos, em tudo obedecei a vossos pais; pois fazê-lo é grato diante do Senhor”.

Percebe-se que, para Paulo, os filhos devem obedecer tendo em vista agradar ao Senhor, sabendo que Deus está vendo, orientando e guiando as suas vidas. Ao Senhor devem prestar contas.

a. Os limites da obediência

Mas quais são os limites da obediência? Há muitos jovens cristãos cujos pais permanecem na ignorância de Deus. Há até mesmo pais evangélicos que exigem coisas absurdas de seus filhos, dando conselhos e orientações por vezes contrários aos ensinamentos claros das Escrituras. Um filho crente, cujo pai age como descrente, deve submeter-se e acatar tudo o que ele diz? Os filhos devem obedecer sempre, até o ponto em que não começa a ser uma desobediência clara aos mandamentos de Deus. Atos 5.29, diz: “Antes, importa obedecer a Deus do que aos homens”. É isso que quer dizer o “no Senhor” do v. 1 de Efésios.

Uma coisa a mais deve ser dita em conexão com este tópico: Crianças, até certa idade, geralmente não têm condições de distinguir claramente entre o bem e o mal, o que é de Deus e o que não é. Isto é natural e próprio da idade. Ainda estão em processo de formação. Nem sempre crianças vão entender as implicações éticas do que os pais pedem. Elas devem obedecer mesmo sem entender, lembrando que a autoridade é dos pais e, portanto, a responsabilidade também.

Um alerta: Hoje vemos pais deixando seus filhos decidirem as coisas, desconsiderando que eles não têm parâmetros para avaliarem o que é certo ou não. Isso apenas reforça o entendimento errôneo de que a criança tem o domínio da autoridade sobre a família. Pais que deixam as crianças decidirem onde comer, que hora dormir, que tipo de roupa usar, etc., apenas contribuem para que eles cresçam indisciplinados.

Tudo isso nos mostra que há uma maldição a ser quebrada na família, e para fazer isto, precisamos entender os limites da obediência.

3. Entender o porquê obedecer

Em nosso texto de Efésios, Paulo apresenta quatro razões para que os filhos obedeçam a seus pais, listadas e brevemente comentadas abaixo.

a. É justo

“Filhos, obedecei a vossos pais no Senhor, pois isto é justo” (Ef 6.1). O “Justo” aqui significa apropriado, conveniente, adequado, que está de acordo com a vontade de Deus. A obediência aos pais é algo da lei da natureza. Filhos obedecem aos pais. É natural, é lógico, é justo. O próprio Filho de Deus, ao tomar forma humana, como criança, sujeitou-se às normas da natureza e de Deus, sendo uma criança obediente. Em Lc 2.51a podemos ler “E desceu com eles para Nazaré; e era-lhes submisso.” É justo, também, porque os pais são mais velhos. Eles têm mais experiência.

b. É um mandamento

A segunda razão apresentada por Paulo é que a obediência aos pais é um dos mandamentos de Deus. Após determinar que obedeçam, ele cita o quinto mandamento dizendo: “Honra a teu pai e a tua mãe, que é o primeiro mandamento com promessa” (Ef 6.2). O ponto central a ser destacado aqui é que a obediência aos pais faz parte dos Dez Mandamentos. Deus nos revelou mais do que dez mandamentos em sua Palavra, mas os Dez Mandamentos são o resumo da sua vontade quanto à maneira de o agradarmos. Deus, sendo um Deus ético e moral, revelou nos Decálogo sua moral.

Portanto, desobedecer ao pai e mãe é tão pecado quanto matar e mentir, é tão pecado quanto a prática da idolatria, é tão pecado quanto ter outros deuses, porque é um dos Dez Mandamentos. Por isto obedecer é coisa séria.

c. Contém uma promessa

O terceiro argumento de Paulo é que o mandamento de honrar aos pais é o primeiro com promessa – “Honra a teu pai e a tua mãe, que é o primeiro mandamento com promessa” (Ef 6.2).

A promessa vinculada a este mandamento é dupla: Primeiro, Deus promete que tudo irá bem aos que obedecem e honram aos seus pais. Segundo, que eles terão uma longa vida sobre a terra (Êx 20.12). Todos os crentes que são obedientes aos seus pais serão abençoados, onde quer que morem. A bênção consiste em prosperidade e em longevidade.

d. É agradável a Deus

E por último, obedecer aos pais é grato a Deus. É esse o argumento que Paulo usa em Colossenses 3.20: “Filhos, em tudo obedecei a vossos pais; pois fazê-lo é grato diante do Senhor”. Aqui em Efésios ele já havia mencionado que agradar ao Senhor deveria se nossa meta (Ef 5.10). A obediência aos pais é agradável ou aceitável diante de Deus, pois foi ele mesmo quem a determinou, e ele se agrada quando seus mandamentos são cumpridos.

Os pais investem, gastam tempo e amor na criação e educação dos filhos e é justo, então, que sejam obedecidos, por gratidão. O Senhor se agrada disto, pois ele próprio constituiu os pais como autoridade na vida dos filhos.

A obediência a Deus evita que nossas famílias sejam amaldiçoadas; pois há uma maldição a ser quebrada e, para isso, os filhos precisam entender o porquê obedecer.

Conclusão

Todos nós somos filhos e devemos agradecer a Deus pela vida de nossos pais Eles são o instrumento de Deus em sua vida, para o educar, orientar, corrigir, encorajar, ajudar e sustentar. Ore sempre pela vida de seus pais. Seja amigo deles abrindo o seu coração e falando sobre todos os assuntos dos quais você sente o desejo. Procure dar ouvidos aos conselhos e orientações dos seus pais. Quando eles disserem que tal coisa pode não ser bom e dar errado, pode ter a certeza que eles desejam o melhor para você, ainda que isso não pareça ser o melhor aos seus próprios olhos.

Seja um filho respeitador em casa ou fora dela. Jamais retruque ou levante a sua voz para os seus pais. Lembre-se de que eles são autoridades constituídas por Deus sobre a sua vida. Procure ser um bom filho honrando seus pais em todas as áreas da sua vida, como, por exemplo, em casa, sendo submisso, na escola, sendo um bom aluno, no namoro, sendo respeitador, no trabalho, sendo competente, nos negócios, sendo honesto, etc.

Lembre-se que Deus tem bênçãos reservadas para os filhos que honram seus pais, pois quando isso acontece, a maldição da desobediência é quebrada.

Perguntas para reflexão

a. Você tem sido um filho obediente?

i. Se já saiu da casa dos seus pais e não precisa obedecê-los diretamente, tem se certificado de cuidar deles, não deixando faltar nada, ainda que tenha que se sacrificar para isso?

ii. Se já tiver filhos, tem se esforçado para ensiná-los a obedecer ou tem simplesmente deixado que eles decidam tudo, afinal, é mais fácil “não irritá-los”?

1. O preço de nunca confrontar os filhos é fazer com que eles tenham vidas amaldiçoadas – e amaldiçoadas por nossa negligência como pais. Você quer isso para seus filhos?

b. Sua correção tem sido “no Senhor”, ou seja, segundo a instrução bíblica?

i. Você, como filho, tem confrontado em amor e respeito, seus pais quando não estão de acordo com a Palavra de Deus? Ou prefere “não caçar confusão” e ser desobediente à Deus?

ii. Como pais, temos ensinado nossos filhos as Santas Escrituras, afim de que elas aprendam e, caso erremos com eles, eles não se desviem por causa do nosso erro e mal testemunho?

c. Nós temos muitos bons motivos para obedecer nossos pais e ensinar nossos filhos a fazerem o mesmo. Já vimos que a obediência traz benção para a vida dos nossos filhos, mas será que temos realmente os ensinado o porquê obedecer?

i. Não honrar os pais é tão grave quanto descumprir qualquer outro mandamento do decálogo (os 10 mandamentos), a saber, roubar, matar, idolatrar, etc. Temos ensinado isso para nossos filhos?

ii. Nós, como filhos, temos agradado a Deus através da obediência e bons tratos dos nossos pais?

1. Se seus pais estão longe, que tal ligar para eles e dizer o quanto são importantes em sua vida?

1a. Ligue e diga que o Senhor estabeleceu eles como autoridade e que, por isso, ira honrá-los para o resto de suas vidas.

1b. Diga o quanto os ama e faça com que eles se sintam queridos.

1c. Se puder, visite seus pais e os abrace o quanto antes.

1d. Se tem muito tempo que não fala com seus pais, seria um bom momento para a reconciliação.

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[1] LOPES, Hernandes Dias. Malaquias: A Igreja no tribunal de Deus. São Paulo: Hagnos, 2006. P. 94.
[2] ὑπακούετε (hupakoiéte) verbo imperativo no presente ativo da 2ª pessoa do plural de ὑπακούω (hupakoío)

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