Uma vida de constância com Deus (Js 14.6-15)

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perseverante

Uma jornalista e escritora brasileira, chamada Martha Medeiros, escreveu um poema intitulado “Pedaços de mim”. Nele há um trecho que diz:

“Eu sou feito de
Sonhos interrompidos
detalhes despercebidos
amores mal resolvidos […]

Muitas vezes eu
Desisti sem mesmo tentar
pensei em fugir para não enfrentar
sorri para não chorar”

A agonia diante de desistências precoces expressada pela autora, não é exclusiva. Vivemos numa época de projetos falidos; num tempo de sonhos fracassados. Vivemos numa era de mediocridade e profunda inconstância. Começamos, para desistir antes do final. É um curso interrompido, um novo trabalho do qual desanimamos, alguma tarefa que abortamos: ir à academia, fazer dieta, chegar em casa ou até mesmo no trabalho mais cedo, etc.

O triste é contemplar esse tipo de postura inconstante em nossas vidas com Deus. Em nossa rotina (ou falta dela) de oração, leitura devocional das Escrituras, compromisso de desenvolver relacionamentos de comunhão, dar adequadamente o dízimo na igreja, e por aí vai. O problema da inconstância é que ela gera preguiça moral, o descaso e a negligência. Como abandonar essa mediocridade?

O texto que consideraremos (Js 14.6-15) fala de um homem chamado Calebe que, creio eu, através de sua vida, tem muito a nos ensinar neste aspecto.

Contextualização

Para entendermos quem é Calebe, é necessário um breve panorama de uma parte da história do povo de Deus, no Antigo Testamento. A Bíblia nos conta que os judeus eram escravos no Egito. Deus, então, levanta um homem chamado Moisés para libertar seu povo e leva-lo para Canaã – a terra prometida. O faraó não deixa o povo sair da terra; Deus manda as pragas. O faraó, então, autoriza a saída do povo, mas logo em seguida muda de ideia, enviando seu exército para matar todos que haviam se retirado de seu domínio. O povo se vê encurralado, pois atrás estava o exército, afrente, o mar. O SENHOR, então, milagrosamente abre o mar para o povo passar e o fecha imediatamente após a passagem dos seus, consumindo, assim, o exército de faraó.

Deus não apenas provou para seu povo seu poder, mas para os egípcios que Ele é o único e poderoso Deus, capaz de fazer tudo – diferente dos ídolos que eles tinham. Depois desta travessia maravilhosa, Moisés e o povo, entoam um hino de Adoração à Deus, dizendo: “Ó SENHOR, quem é como tu entre os deuses? Quem é como tu, glorificado em santidade, terrível em feitos gloriosos, que operas maravilhas?” (Ex 15.11) Nada mais natural, pois, diante do poder de Deus, não há outra atitude, senão, a adoração mais sincera e genuína que conseguirmos!

Este mesmo povo, contudo, que usa a voz para adoração também a usa para murmuração. Não muito depois disso, o povo começou a reclamar. Primeiro, por falta de água (Ex 15); segundo, por falta de comida (Ex 16). Deus, que é misericordioso e longânimo, transforma águas amargas em próprias para consumo. Manda o Maná, um pão que descia providencialmente do céu todos os dias, e também, manda codornizes, para eles saciarem seus desejos de comer carne. Durante a peregrinação do povo no Deserto, o Senhor nunca deixou faltar nada essencial para seu povo. Ele sempre mostrava sua fidelidade e seu poder. Estou certo, que durante nossa peregrinação aqui nesta terra, o Senhor também não tenha deixado faltar nada essencial em nossas vidas.

Um pouco mais de tempo se passa e ao se aproximarem da terra de Canaã, Moisés mandou alguns espias, 12 espiões, para dar uma olhada na terra que Deus tinha prometido a eles. Estes espias voltaram e deram o relatório: “A terra é muito boa, de fato emana leite e mel, mas ela é habitada por gigantes, em cidades fortificadas, de maneira que nós, diante deles, somos como gafanhotos. ” (Nm 13.27-29, 31-33)

O povo ao escutar esse relatório se desesperou, ficou irado e começou a reclamar, pois “Deus tinha tirado eles do Egito para morrer na mão daqueles povos” (Nm 14.1-3). Eles queriam apedrejar Moisés (Nm 14.10). Eles queriam vingança! Mas 2 dos 12 espiões deram um relatório diferente, esperançoso. Eles eram Josué e Calebe. Segundo eles, “a terra realmente era boa, cheia de delícias, e seus habitantes poderosos, mas eles conseguimos vencê-los, pois o Senhor estava com eles!” (Nm 14.6-9)

Josué se tornou o sucessor, substituto de Moisés, depois que ele se foi. E Calebe se tornou um dos exemplos bíblicos contra a volatilidade, pois ele teve uma vida de Constância com Deus!

Uma vida de constância com Deus

Numa vida assim, possuímos:

1. Fé em tempos difíceis (v. 6-8)

6 Chegaram os filhos de Judá a Josué em Gilgal; e Calebe, filho de Jefoné, o quenezeu, lhe disse: Tu sabes o que o SENHOR falou a Moisés, homem de Deus, em Cades-Barnéia, a respeito de mim e de ti. 7 Tinha eu quarenta anos quando Moisés, servo do SENHOR, me enviou de Cades-Barnéia para espiar a terra; e eu lhe relatei como sentia no coração. 8 Mas meus irmãos que subiram comigo desesperaram o povo; eu, porém, perseverei em seguir o SENHOR, meu Deus.

Do versículo 1-5 do cap. 14, podemos ver que Josué iria, através da sorte e confiança na soberania de Deus, distribuir as terras que ainda estavam para ser conquistadas. Aqui, no v. 6 do nosso texto, Calebe, juntamente com os “filhos de Judá”, ou seja, os líderes desta tribo, chegam a Gilgal, cidade que neste tempo funcionava como centro de operações. Lá ele apresenta sua petição a Josué, através da qual, olhando para sua primeira parte, podemos perceber a fé deste requerente.

Primeiro, Calebe confia na consciência de Josué
Calebe e Josué já estavam caminhando juntos há muito tempo. Eles foram companheiros de missão ao espiar a terra, viram juntos as maravilhas de Deus ao sustentar o povo, lutaram juntos em batalhas. Agora, Calebe apela para a consciência de Josué, ao dizer “Tu sabes”. Ele sabia que Josué estava presente quando recebeu a promessa da terra que seria sua por herança, tanto que completa dizendo que foi dito sobre os dois, não apenas sobre um deles: “o que o SENHOR falou a Moisés, homem de Deus, em Cades-Barnéia, a respeito de mim e de ti.”(v. 6)

Segundo, Calebe confia no que disse Moisés
Aqui é usado um argumento de autoridade, que é um apelo para uma citação de uma fonte confiável, palavras de alguma autoridade a fim de validar o argumento. Calebe faz menção honrosa de Moisés, que de forma alguma seria descortês a Josué. Ele diz “Moisés, homem de Deus” (v. 6), e “o servo de Deus” (v. 7). Moisés era porta-voz de Deus. O que ele dizia era compreendido como sendo diretamente do Senhor, então, ao mencioná-lo, não só está fazendo com que suas palavras ganhem força, mas também expressando que ele confiava no que foi dito por ele.

Terceiro, Calebe tem fé nas promessas do Senhor
Calebe traz à memória de seu companheiro o tempo em que foram enviados por Moisés para espiar a terra de Canaã, saindo de Cades-Barnéia. Ele lembra que possuía quarenta anos e trouxe um relatório “como sentia no coração”(v. 7), ou seja, sincero, franco. “Ele não o fez meramente para agradar a Moisés, ou para manter o povo em silêncio, muito menos com um espírito de oposição aos seus companheiros, mas com uma plena convicção da verdade que dizia e uma firme certeza da promessa divina.”[1] Seus irmãos, se desesperaram, ele, porém, perseverou em seguir ao SENHOR, seu Deus! (v. 8)

Olhando para aquela situação, constatamos que realmente não era boa. O povo era refugiado, sem recursos, sem armas, sem treinamento e em pequeno número. Eles não eram ninguém. Mas o Deus de Israel é o Deus todo poderoso sobre céus e terra! Deus já havia demonstrado seu poder, mas ainda assim houveram pessoas para se desesperar. Eles não tiveram fé.

Quando falamos em fé, podemos lembrar da epístola aos hebreus, cap. 11, quando ele diz:

1 Ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não veem. 2 Pois, pela fé, os antigos obtiveram bom testemunho. 27 Pela fé, ele [Moisés] abandonou o Egito, não ficando amedrontado com a cólera do rei; antes, permaneceu firme como quem vê aquele que é invisível. 29 Pela fé, atravessaram o mar Vermelho como por terra seca; tentando-o os egípcios, foram tragados de todo. (Hb 11.1,2,27,29)

A fé faz maravilhas! A “galeria da fé” em Hebreus está cheia de exemplos de pessoas ordinárias mas que, pela graça de Deus, viveram extraordinariamente. A história está encharcada pelo sangue dos mártires que entregaram suas vidas por causa de sua fé. Ainda hoje, o Deus do dom da fé, a concede ao seu povo, quer nos dias bons ou nos dias ruins.

No ano de 2010 a Coca Cola lançou uma campanha publicitária. Nela, uma pessoa enchia um copo pela metade, enquanto o narrador dizia: “Os que não se perguntam se o dia será bom são os mesmos que também não se perguntam se o copo está meio vazio, porque para eles o copo está sempre meio cheio”. Uns olham para as circunstâncias e para a história e se desesperam. Outros, pela fé, olham para o Senhor da história e confiam em sua Palavra. Calebe, em tempos de crise teve fé, e permaneceu firme nas promessas do Senhor!

Você é daqueles que se desespera nos tempos difíceis ou dos que crê nas promessas de Deus, através de sua Palavra? Você, assim como Calebe, está disposto a ir contra toda uma geração por causa da sua fé? O Brasil está passando por crises, a economia não está boa, a situação está terrível, mas você olha para o contexto da história, ou para o Senhor que escreveu a história? Seus olhos estão postos apenas nos problemas da vida e no sofrimento ou na recompensa que o Senhor dará, que é o consolo na eternidade, onde não haverá mais choro? As circunstâncias mudam a forma como você lida com sua fé em Deus, ou sua fé altera a forma de como você lida com as circunstâncias?

Numa vida assim [de constância com Deus], também temos:

2. Perseverança e disposição ao longo da caminhada (v. 8b-11)

8 […] eu, porém, perseverei em seguir o SENHOR, meu Deus. 9 Então, Moisés, naquele dia, jurou, dizendo: Certamente, a terra em que puseste o pé será tua e de teus filhos, em herança perpetuamente, pois perseveraste em seguir o SENHOR, meu Deus. 10 Eis, agora, o SENHOR me conservou em vida, como prometeu; quarenta e cinco anos há desde que o SENHOR falou esta palavra a Moisés, andando Israel ainda no deserto; e, já agora, sou de oitenta e cinco anos. 11 Estou forte ainda hoje como no dia em que Moisés me enviou; qual era a minha força naquele dia, tal ainda agora para o combate, tanto para sair a ele como para voltar.

A fé em Deus que Calebe tinha, a despeito das circunstâncias, não o deixou parado. Como uma semente que cai em terra boa, ela brotou, cresceu, floresceu e deu frutos – e frutos perenes. Ela o fez perseverante e disposto. Para fins didáticos, considerarei separadamente cada uma destas características.

Perseverança
Seu conceito: Segundo o Dicionário da Bíblia Almeida, perseverança é permanência num estado ou numa atividade, mesmo em caso de oposição ou fracasso.[2] Mas a perseverança por si só não é nada. Quem persevera, persiste e permanece em algo ou alguém – e isso faz toda a diferença. Há pessoas que perseveram em situações erradas diante de Deus. Há quem persista em pessoas, quem sabe líderes e falsos profetas, que lhes afastam do verdadeiro evangelho. Há também aqueles que persistem em suas práticas pecaminosas, embora sejam alertados inúmeras vezes por alguém.

Sua continuidade: Não é o caso de Calebe. Ele perseverava “em seguir ao Senhor, seu Deus” (v. 8b). Quando ele declara segui-lo, o faz de forma pessoal, assim como Moisés (v. 9). YHWH, o grande EU SOU, era seu Deus pessoal. No final do v. 8, Calebe mostra que era consciente de que no passado, quando ele foi espiar a terra, ele fora perseverante. No v. 9, ao Moisés prometer-lhe a terra, reconhece que ele foi perseverante. Agora, 45 anos depois, enfrentando as provações no deserto, sua postura não mudou (v.10).

É interessante notar que a palavra hebraica que foi traduzida como “perseverança” usada no nosso texto, embora ela tenha um grande campo semântico, durante todo o Antigo Testamento, ela aparece somente 8 vezes com este sentido[3] – e das oito[4], sete se referem ao episódio do relatório dos espias enviados por Moisés, e seis vezes se referem à Calebe. Sendo que somente no nosso texto base, aparece três vezes (Js 14.8,9,14). Isso ressalta esta característica tão marcante na caminhada de Calebe.

Jesus, no evangelho de Marcos, fala sobre a perseverança dos Santos, quando afirma que “seremos odiados de todos por causa do seu nome; aquele, porém, que perseverar até ao fim, esse será salvo.” (Mc 13.13) Quando Paulo escreve aos Efésios, nos chama atenção para a realidade da guerra espiritual em que vivemos e que, por isso, devemos perseverar em ser vigilantes (Ef 6.18).

Calebe viveu perseverantemente em um contexto de guerra, e ao longo da caminhada.

Disposição
Por causa de sua perseverança, Calebe também tinha disposição ao longo da caminhada. Ele e Josué eram os únicos idosos no meio do povo. Todos os mais velhos já haviam morrido, toda uma geração havia passado, só eles haviam sobrado. Por causa da falta de confiança em Deus, todos foram tragados no deserto, exceto estes dois anciãos. O próprio Deus já havia lembrado Josué que ele estava “entrado em dias”, ou seja, com a idade avançada, em Js 13.1. Calebe era consciente de sua condição, por isso no início do v. 10 ele diz que “o SENHOR o conservou em vida, como prometeu”. Deus havia prometido que ele não morreria como os outros e entraria na terra prometida (Nm 14.24), e cumpriu.

Calebe, apesar de estar com 85 anos, faz uma alegação surpreendente no v. 11: “Estou forte ainda hoje como no dia em que Moisés me enviou; qual era a minha força naquele dia, tal ainda agora para o combate, tanto para sair a ele como para voltar.” Segundo ele, depois de aproximadamente 40 anos vagando no deserto e 5 guerreando nas terras de Canaã, ele estava com o mesmo vigor para batalhar. Mais do que isso, ele estava cheio de disposição tanto para sair, quanto para voltar do combate. Imagine só um senhor de 85 anos que você conheça fazendo uma declaração assim! Moisés disse, em sua oração (Sl 90.10), que aos oitenta anos, a vida traz canseira e enfado. É isso que normalmente ocorre. Mas Calebe foi uma exceção à regra.[5]

É importante dizer que disposição não está necessariamente relacionado a ter força para fazer algo. Sim, com a decisão de executar alguma tarefa; é uma disposição do coração, nem sempre ligada às possibilidades físicas.

Quando Jônatas, no cap. 14 do livro de 1 Samuel, está se preparando para lutar contra os Filisteus, diz ao seu escudeiro para segui-lo na batalha, pois o SENHOR daria a vitória à eles. O escudeiro responde, dizendo: “Faze tudo segundo inclinar o teu coração; eis-me aqui contigo, a tua disposição será a minha.” (v.7). Em outras palavras, a decisão de guerrear que Jônatas havia disposto no seu coração, seria a mesma dele. Ambos aqui tinham a mesma disposição.

Há pessoas que, embora não tenham forças, possuem muita disposição. Estas, com muito esforço acabam conseguindo o que almejavam fazer. Há, no entanto, aqueles que possuem força, mas não disposição. Eles não decidem, não agem, esperdiçando assim suas energias em nada. Calebe não inutilizava suas forças, as desperdiçando em nada. Além de vigor, ele possuía disposição ao longo da caminhada.

Certa vez, um corredor foi participar da maior competição de sua vida. Ele havia passado anos treinando, privando-se do lazer e dedicando todo o seu tempo ao treinamento para ganhar aquela grande corrida; desejava somente a vitória.

Naquele grande dia, ele encontrou outros competidores também preparados e dispostos a vencer. Ele se posicionou em sua raia; seu coração estava a mil por hora. Em meio a arquibancada lotada, ele observou o seu pai, que se espremia entre os torcedores para vê-lo vencer. Ele lhe fez um sinal, dizendo: “Filho, você vai vencer!” Essas palavras encorajaram ainda mais o jovem que estava ali, entre grandes corredores. Todos se posicionaram, aguardando o ordem da largada. Assim que o tiro quebrou o silêncio do estádio, todos os competidores se lançaram em disparada em busca do primeiro lugar. A arquibancada começou a vibrar diante da vontade daqueles atletas na pista. Eis que o pai do jovem corredor começou a gritar: “Filho, acelera! Você vai conseguir!”. O seu filho passou o competidor que estava em terceiro lugar e, em seguida, o que estava em segundo. O estádio vibrou diante da garra com que aquele rapaz estava correndo. O seu pai gritou: “Vai lá, meu filho! Só falta mais um!”. O jovem corredor se aproximou do primeiro colocado e conseguiu passá-lo. Os repórteres ficaram admirados com a velocidade do rapaz. Seu pai então gritou: “Filho, vai fundo! Só falta uma volta!”. O rapaz se manteve na vantagem e o estádio inteiro o apoiava. Todos percebiam que ele iria ganhar a corrida sem nenhuma dificuldade.

Faltando alguns metros para a linha de chegada. Seu pai começou a pular no meio da multidão, vibrando, pois via que o seu filho iria vencer. Mas, de repente, o rapaz gritou e caiu no chão se torcendo de dor com a mão no tornozelo. Faltava apenas alguns metros para a linha de chegada. O estádio ficou em silêncio. Os outros competidores passaram por ele, deixando-o para trás. Seu pai pulou o alambrado e foi até a pista. Levantou seu filho e apoiou-o em seu ombro. Os dois então começaram a caminhar em direção a linha de chegada. O estádio ficou de pé e começou a aplaudi-los. Em meio a toda aquela emoção, o pai disse ao seu filho: “Falta só mais um pedacinho para você chegar.” E ele chegou à linha de chegada.

O estádio vibrou. Pessoas choraram emocionadas, os repórteres cercaram o local para entrevistá-lo. A atenção não se voltou para o atleta que chegou em primeiro lugar, mas para a garra e determinação daquele pai e daquele filho. Na entrevista, o rapaz disse: “Posso até não ter chegado em primeiro lugar mais fui até o fim com ajuda do meu pai”.

Este corredor, com seu pai, tiveram perseverança, desde o preparo até o grande dia, e uma disposição decisiva ao longo da caminhada, assim como Calebe.

Talvez estejamos acostumados a desistir rapidamente do que nos propomos a fazer. Se é algum projeto de vida na igreja ou fora dela, tentamos apenas um curto prazo de tempo, e se não der certo, desistimos. Se nos propomos a ser mais disciplinados nos estudos, no trabalho e na vida devocional diária, contudo, diante do primeiro fracasso, desistimos. Aos casados, se se propõem a passar mais tempo com sua esposa e filhos, mas desistem diante das demandas. Se nos propomos a abandonar maus hábitos e temos recaídas, desistimos.

Certamente há, em nossas vidas, áreas nas quais precisamos ser perseverantes. E quanta força, vigor e capacidade nós temos para servir a Deus, mas não fazemos pois falta disposição? Vença o desânimo e o cansaço com a disposição que o Senhor te dá!

Por fim, numa vida de constância com Deus, temos:

3. Segurança no Senhor até o fim (v. 12-15)

12 Agora, pois, dá-me este monte de que o SENHOR falou naquele dia, pois, naquele dia, ouviste que lá estavam os anaquins e grandes e fortes cidades; o SENHOR, porventura, será comigo, para os desapossar, como prometeu. 13 Josué o abençoou e deu a Calebe, filho de Jefoné, Hebrom em herança. 14 Portanto, Hebrom passou a ser de Calebe, filho de Jefoné, o quenezeu, em herança até ao dia de hoje, visto que perseverara em seguir o SENHOR, Deus de Israel. 15 Dantes o nome de Hebrom era Quiriate-Arba; este Arba foi o maior homem entre os anaquins. E a terra repousou da guerra.

Da fé (v. 6-8a), que produz perseverança e disposição (v. 8b-11), Calebe vai à segurança (v. 12-15). Ao finalizar seu pedido a Josué, ele expressa estar:

Seguro de que, através do favor divino, poderia vencer gigantes e derrubar muralhas (v.12,15a)
Josué já havia dominado a cidade de Hebrom (Js 10.36-39), mas o monte na qual esta cidade era edificada ainda era habitado pelos enaquins, filhos de Enaque, um povo de alta estatura. A formidável reputação dos descendentes de Enaque tornou-se um provérbio entre os israelitas (Dt 1.28; 2.10).[6]

É significativo dizer que Calebe, no v. 12 do nosso texto em voga, repete os mesmos dizeres que os espias desmotivadores proferiram: (1) As cidades são grandes, fortificadas; e (2) a terra habitada por gigantes (Nm 13.22-33). Porém, diferentemente de seus irmãos sem segurança no Senhor, ele conclui, dizendo: “o SENHOR, porventura, será comigo, para os desapossar, como prometeu.” (v. 12b) Calebe estava seguro que não era através do seu vigor físico conservado, nem da sua disposição para batalha que iria conquistar o que parecia inconquistável. A palavra hebraica que foi traduzida como porventura[7] nas nossas Bíblias, denota, usualmente, esperança (Gn 16.2; Nm 22.6,11). O efeito da esperança de Calebe é tão certo quanto a sua fé é forte.[8] Sua esperança segura estava no favor divino, sua garantia estava na palavra que Deus havia lhe dito. Através da promessa de Deus, ele poderia derrubar muralhas intransponíveis e vencer gigantes invencíveis.

Além disso, Calebe expressa estar:

Seguro de que receberia a herança do Senhor (v. 13,14)
Segundo Warren Wiersbe, a palavra “herança” aparece mais de cinquenta vezes no livro de Josué e é um termo de grande importância. Só nesta perícope que está sendo discorrida, ela aparece três vezes. Os israelitas herdaram a terra. Não a obtiveram como despojo de batalha nem a compraram numa transação comercial. O Senhor havia lhes dado a seguinte instrução: “Também a terra não se venderá em perpetuidade, porque a terra é minha; pois vós sois para mim estrangeiros e peregrinos” (Lv 25.23).[9]

Nos v. 13 e 14 do nosso texto, Josué homologa a posse de Calebe sobre a terra, que passa a ser sua herança, seu direito, e o abençoa. A benção aqui é diante de Deus, que antes de mais nada já havia, prometido esta herança. Se nossa herança está no Senhor, não há motivos para nos preocupar. Ninguém pode arrancar nada das mãos de Deus.

Olhando para as Escrituras, esta ideia de herança nos aponta para algo muito maior: o reino de Deus com todas as suas bênçãos presentes e futuras (Hb 9.15; Rm 8.17; 1Pe 1.3-4). No cap. 1 de Efésios, depois que o Apóstolo Paulo explanou que uma vez em Cristo, sempre estaremos n’Ele, segundo o beneplácito de Sua vontade (v. 5, 9,11), ele diz que o Espírito Santo de Deus é o penhor, ou seja, a nossa garantia que receberemos uma herança (Ef 1.14). Esta herança é a salvação em Jesus Cristo. Em 1 Pe 1.3,4, está escrito: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua muita misericórdia, nos regenerou para uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança incorruptível, sem mácula, imarcescível, reservada nos céus para vós outros”. Nossa herança não pode ser destruída nem violada, e se o próprio Deus é quem garante que nós iremos recebe-la, não há segurança maior do que esta. No evangelho de João, Jesus diz: “Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão. Aquilo que meu Pai me deu é maior do que tudo; e da mão do Pai ninguém pode arrebatar.” (Jo 10.28,29)

Calebe estava seguro no Senhor, quanto ao recebimento de sua herança, pois o próprio Senhor, soberano sobre tudo e todos, é quem lhe dava essa garantia, assim como nos dá hoje. Que maravilha é saber que somos peregrinos e que, por mais infeliz e cheia de intempéries for nossas vidas, há a segurança de uma eternidade muito melhor através de Cristo!

Há a história de um homem sempre dizia ao seu filho: “Haja o que houver, eu sempre estarei a seu lado.” Certo dia, após um terremoto de intensidade muito grande quase acabar com a cidade, este homem correu para a escola do seu filho e só encontrou um monte de ruínas. Imediatamente, ele e outros pais que haviam chegado começaram a cavar. Depois vieram os bombeiros e mais pessoas para ajudar. As horas passavam rapidamente e com elas, a esperança de encontrar alguém com vida.

Um a um, cansados e desesperados, os pais foram deixando o trabalho de buscas para os bombeiros, mas, esse homem, de forma obstinada, continuava. Pediram-lhe que descansasse um pouco, mas, ele não parava. A sua promessa ao seu filho lhe renovava as forças: “Haja o que houver, eu sempre estarei a seu lado”. Ao afastarem uma enorme pedra, com a ajuda de um guindaste, ele chamou mais uma vez pelo filho. E uma voz infantil lhe respondeu:
– Pai… estou aqui!
– Você está bem, filho?
– Sim, papai, mas, estamos com sede e fome.
– Tem mais alguém com você?
– Sim, todos os alunos da minha classe estão aqui.

Eles haviam ficado presos em um vão entre dois pilares de concreto. Quando a televisão veio entrevistar o menino e perguntou se ele havia ficado com medo, ele emocionou a todos ao dizer:
– Não, eu falei para os meus amigos: “Não precisam ter medo, meu pai irá nos achar. Ele prometeu que sempre irá estar ao meu lado. E meu pai nunca quebra uma promessa”.

A caminhada de Calebe não foi fácil, muito pelo contrário. Ele, por obediência enfrentou muitas “tempestades” em sua vida, mas assim como esse garoto possuía segurança na promessa do pai, Calebe perseverou em seguir o Senhor e sabia que poderia ter segurança no Senhor até o fim.

Quais são os desafios que você como cristão tem que enfrentar? Quantos são aqueles amigos que ficaram pelo caminho, desistindo. Será que em algum momento também nós não pensamos nisso? Mas, pense bem, o mesmo Deus que nos conduz não é o Deus que também nos sustenta e sustentará? Será que temos consciência que, com o auxílio divino, estamos seguros até o fim, desde que estejamos dentro da vontade dEle? Será que desfrutamos da maravilhosa segurança da herança da salvação e nos apropriamos de “toda a sorte de bênçãos espirituais” (Ef 1:3)? É necessário termos sempre em nosso coração que é a segurança no Senhor que nos levará até o fim. Seguros no Senhor iremos para qualquer lugar, mas faremos a vontade dEle.

Conclusão

Calebe foi bem-sucedido em sua conquista e subjugou um povo demasiadamente poderoso (Js 15.13-19), de maneira que, até mesmo o nome da cidade conquistada mudou. Ela era conhecida como Quiriate-Arba, pois Arba era o maior homem entre os enaquins. Ele era gigante entre os gigantes (v.15). Mas, se antes ela era conhecida por seus gigantes, agora é conhecida por seus novos habitantes, os descendentes de Calebe. A cidade agora passa a se chamar Hebrom que, segundo segundo Stigers, significa associação, liga, aliança. Tudo isso só foi possível, graças a graça de Deus, que fez Calebe ter uma vida de constância com Ele.

Para Richard Hess, Calebe representa o ideal, um exemplo, do crente, que corajosamente age debaixo das promessas de Deus (Hb 11).[10] Mas prefiro tomar cuidado para não transforma-lo num mero exemplo. O elemento de exemplo está presente, mas está embutido num relato que transmite a história do progresso da redenção de Deus.

Como bem disse Woudstra, “A história começada aqui tem por seu cumprimento final a herança da salvação em Cristo (Cf. Mt 25.34; Ef 1.14; Cl 3.24; Hb 9.15). Isso dá ao material de Josué uma perspectiva necessária como profundidade escatológica, e leva a uma ‘aplicação’ muito mais dinâmica e eficaz do que o método de exemplos seria capaz de oferecer.” Segundo ele, “a impulsão principal do texto bíblico, aqui ou em outra parte, é o desenvolvimento da linha histórica da redenção. Dentro desse contexto maior, pode-se dar o devido destaque aos “exemplos” de fé.”[11]

A vida de Calebe, por conseguinte, não podemos negar ter sido uma vida de constância com Deus, onde evidenciava-se sua (1) fé nos tempos difíceis, (2) perseverança e disposição ao longo da caminhada e, por fim, (3) segurança no Senhor até o fim.

___

[1] HENRY, Matthew. Comentário Bíblico Matthew Henry: Antigo Testamento, Volume 2. Rio De Janeiro: CPAD, 2010. Kindle Edition, posição 395,7 / 5311
[2] KASCHEL, Werner; ZIMMER, Rudi. Dicionário da Bíblia de Almeida. Barueri: SBB, 1999. p. 237. Versão Digitalizada.
[3] מלא verb piel perfect 1st person common singular. BDB 5310 [מָלֵא] [5311] (Hebrew) (page 569) (Strong 4390)
[4] Nm 14.24, 32.11,12; Dt 1.36; Js 14.8,9,14; 1 Rs 11.6.
[5] HENRY, Matthew. Comentário Bíblico Matthew Henry: Antigo Testamento, Volume 2. Rio De Janeiro: CPAD, 2010. Kindle Edition, posição 399,9 / 5311.
[6] GARDNER, Paul. Quem é quem na Bíblia Sagrada. São Paulo: Vida, 1995. p. 52.
[7] Strong, J. (2002). Léxico Hebraico, Aramaico e Grego de Strong. Sociedade Bíblica do Brasil. Segundo o DITAT, אולי é um advérbio que pode ser traduzido por (1) talvez, porventura, (2) se porventura, (3) a não ser que, e (4) supondo que.
[8] WOUDSTRA, Marten H. Josué: Comentários do Antigo Testamento. São Paulo: Cultura Cristã, 2011. p. 214.
[9] WIERSBE, Warren W. Antigo Testamento Vol. 2: Histórico. Santo André: Geográfica, 2010. p. 64. Comentário Bíblico Expositivo.
[10] HESS, Richard. Josué: Introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1980. p. 213.
[11] WOUDSTRA, Marten H. Josué: Comentários do Antigo Testamento. São Paulo: Cultura Cristã, 2011. p. 215.

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